A telemedicina será um dos legados da pandemia

Os momentos de adversidades que estamos vivendo, certamente, não serão em vão. O “novo normal”, que é bastante anormal, um dia irá passar e retomaremos a vida de forma bem diferente do que era antes da pandemia. Iremos olhar para as coisas de forma mais solidária, com mais compaixão e valorizando cada abraço, cada encontro familiar, sem medo.

A Covid-19 trouxe inúmeros desafios para toda a sociedade e com a medicina não foi diferente. Estivemos e ainda estamos no olho do furacão, enfrentando essa guerra onde conhecemos pouco do inimigo. É uma luta diária, uma batalha por vez a ser vencida.

Um dos legados que essa pandemia já nos deixa é a telemedicina. Todos nós nos habituamos com as soluções digitais e reuniões online, recursos estes impensáveis no começo do século passado, quando a gripe espanhola vitimou um quarto da população mundial da época, cerca de 500 milhões de pessoas. E naquela epidemia global, o vírus era o influenza, hoje um “velho” conhecido nosso.

Provavelmente, se os recursos de comunicação fossem disponíveis em 1918/19, milhões de vidas teriam sido salvas, como estão sendo agora com a Covid-19, onde podemos nos articular para promover campanhas massivas de uso de máscara, distanciamento social e até as informações sobre a vacina, para caminharmos com a imunização da população de forma mais ágil.

A telemedicina, que por tanto tempo foi discutida e nunca regulamentada, teve na pandemia a oportunidade para mostrar para que serve e em quais situações pode ser usada. Uma pesquisa realizada pela Associação Paulista de Medicina revelou que 70% consideram que ela pode ampliar o atendimento médico. Com a telemedicina regulamentada em definitivo pelo Conselho Federal de Medicina, 63% dos entrevistados afirmaram que utilizariam o recurso como ferramenta complementar ao atendimento do consultório. Outros 25% disseram que talvez a utilizassem.

Os médicos ouvidos pela APM consideraram a telemedicina uma oportunidade imediata e, talvez, no longo prazo para 69%. Já para 90%, a tecnologia digital será capaz de diminuir as filas por atendimentos especializados no serviço público de saúde.

            Dois dos maiores e mais respeitados hospitais pediátricos do país – o Pequeno Príncipe em Curitiba e o Sabará em São Paulo, estão atuando em conjunto em relação ao assunto e trouxeram o TytoCare para o Brasil, um kit tecnológico portátil que permite a realização de exame físico em qualquer lugar, bastando ter sinal de internet. O Pequeno Príncipe e o Sabará atuam como aceleradores da startup Tuinda Care

            A ferramenta pode ser utilizada no atendimento de crianças e adultos, nas especialidades de Pediatria, Clínica Geral, Otorrinolaringologia, Pneumologia, Cardiologia e Dermatologia, entre outras. É possível realizar exame de otoscopia para avaliar as estruturas do ouvido, como o canal auditivo e o tímpano; analisar possível infecção da garganta, por meio de um depressor de língua; auscultar pulmão, coração e abdômen; medir a temperatura; e fazer imagens de lesões na pele com alta precisão e acurácia.

            Conforme detectou a pesquisa da APM, o TytoCare pode ser utilizado para desafogar os atendimentos nos serviços públicos de saúde. Tem sido útil também como um aliado na formação de futuros profissionais, onde o médico preceptor tem acesso exatamente às  mesmas informações dos residentes, ambos analisam os mesmos parâmetros e podem discutir os casos de pacientes para encontrarem a melhor solução diagnóstica.

            O “novo normal” que irá permanecer tem uma cara tecnológica, mas é somente a conexão, a forma de interligar as pessoas. O olhar humano, o atendimento personalizado sempre haverá de existir na medicina, seja no contato presencial ou no online. A relação médico-paciente seguirá com a mesma qualidade e confiança, apenas mais moderno, quando for possível ser.

Por Ana Carolina Lucchese
Diretora de Marketing e Novos Negócios da Tuinda Care

Novas tecnologias são aliadas na democratização do acesso à saúde no Brasil

Não resta dúvida de que a Telemedicina é um dos maiores legados da pandemia. As consultas remotas atingiram um patamar de relevância inédito no Brasil e têm evitado a ida de milhares de pacientes a hospitais, clínicas, laboratório, locais com alto índice de contaminação por Covid-19. Um novo hábito que carrega consigo outros tantos benefícios, como menos deslocamentos, otimização de tempo e redução de custos. E a tendência é que cada vez mais pessoas tenham acesso e vivam essa experiência.

Comodidade e otimização de recursos que podem se ampliar. Imagine que além de fazer uma consulta por videochamada, já é possível realizar, sentado no sofá de casa, um exame físico de otoscopia (para avaliar as estruturas do ouvido, como o canal auditivo e o tímpano); analisar uma possível infecção da garganta; auscultar pulmão, coração e abdômen; medir a temperatura; e fazer imagens daquela lesão na pele que está preocupando. Tudo isso com alta acurácia e muita segurança. Todos os resultados são enviados em tempo real para o médico que, lá do outro lado da linha, avalia o quadro do paciente, emite o diagnóstico na hora e já inicia o tratamento necessário.

Você deve estar se perguntando: “mas será que os resultados são confiáveis?”. Um estudo apresentado em um congresso europeu comprovou que sim. Os dados coletados de 193 pacientes submetidos a exames físicos realizados com o equipamento TytoCare foram comparados com o exame físico tradicional/presencial para verificação da compatibilidade dos dois métodos. E os resultados não deixam dúvida que essa é sim uma ferramenta que pode mudar o cenário de múltiplas práticas clínicas, tornando possível o acompanhamento remoto de indicadores que antes só eram possíveis presencialmente.

O ensaio que mencionei apontou concordância de 98% no caso da ausculta pulmonar, 96% em ruído do tórax, 94% em ruídos adventícios, 93% no ritmo do coração, dentre outros exames comparados, todos com alto grau de precisão. É sempre gratificante ver como a tecnologia, em uso, provoca reações de encantamento em médicos de diversas especialidades, que ficam surpresos com o grau de nitidez dos exames realizados à distância e as possibilidades que vislumbram a partir deles.

Atualmente esta plataforma tecnológica é utilizada pelos hospitais de referência em pediatria no Brasil, Pequeno Príncipe e Sabará – que são aceleradores da startup Tuinda Care, distribuidora exclusiva da tecnologia TytoCare no Brasil –, pela operadora de Saúde Care Plus, dentre outras instituições de saúde.

E pode beneficiar muito mais pessoas. Na rede pública, por exemplo, o equipamento poderia ajudar milhares de brasileiros com acesso restrito a medicina. Imagine uma comunidade ribeirinha inteira com acesso a cuidados médicos de qualidade com um aparelho que necessita apenas de sinal de internet para funcionar. Cidades afastadas e desassistidas podem ter acesso imediato a especialidades médicas, que antes só estavam disponíveis a dias de viagem de distância. Ou ainda pessoas dos grandes centros que tenham dificuldade de locomoção, para as quais uma ida ao hospital ou a um centro clínico para ter atendimento médico pode significar um enorme transtorno.

Acredito que a telemedicina ainda trará outro benefício ainda maior, que será sentido a longo prazo: o empoderamento das pessoas e das famílias no cuidado de sua saúde. Ao levar o atendimento médico para dentro de suas casas, combinado com o uso de equipamentos que permitem a cada um monitorar seus sinais vitais e realizar exames como uma otoscopia sem a presença do médico, sentimos que o paciente se engaja mais em seu diagnóstico e no acompanhamento da evolução do seu próprio quadro. O paciente passa a se sentir protagonista, entendendo que precisa exercer papel ativo no gerenciamento da sua saúde. Como, aliás, deveria ser. Afinal, de nada adianta o médico passar recomendações e prescrições se o paciente não as seguir – muitas vezes é preciso alterar rotinas e hábitos, e para isso é fundamental estar engajado.

Estamos entrando em uma nova era, com a tecnologia e conectividade unindo pontas antes distantes e mudando a forma como cuidamos de nossa saúde. Pensar na democratização do acesso a excelência médica em todo o país não é mais um sonho distante. É uma realidade prestes a acontecer.

Por Ana Carolina Lucchese
Diretora de Marketing e Novos Negócios da Tuinda Care

Telemedicina e pediatria: um olhar para o presente e para futuro

Um relatório da UNESCO divulgado em 15 abril de 2020, projetou os impactos da pandemia da Covid-19 nas saúdes física e mental das crianças ao redor do mundo. Segundo os relatores, todos os avanços alcançados nos últimos dois a três anos, em termos de acesso à saúde e redução de morbimortalidade, bem como educação, imunizações e proteção à saúde mental, seriam perdidos em um ano de pandemia, especialmente nos países mais vulneráveis.

A explicação para esta projeção alarmante pode parecer óbvia, mas vale uma reflexão. O olhar da saúde em 2020 e 2021, voltou-se aos doentes da Covid-19, sendo estes predominantemente adultos e idosos. E não poderia ser diferente: o Brasil é o terceiro país do mundo em número de infectados e o segundo em número de mortos. Crianças e adolescentes por sua vez, sofrem de forma secundária com a desestruturação dos serviços de saúde superlotados, das escolas fechadas e de recursos públicos realocados.

Acompanhamentos regulares de pacientes com doenças crônicas sofreram forte impacto durante o período pandêmico, como resultado da dificuldade de acesso e restrição a consultas presenciais. O que por sua vez acarretou dificuldade de prevenção de piora clínica e a um controle menos rigoroso destes pacientes. Adicionalmente, àqueles que adoecem de outras enfermidades que não a Covid-19, tem igual dificuldade ao acesso a serviços de saúde, com importante retardo no diagnóstico de doenças graves, incluindo neoplasias. Crianças saudáveis por sua vez, passam a apresentar atraso no calendário vacinal e falhas no seu acompanhamento rotineiro, com a insurgência de doença preveníveis como anemias carenciais, mal nutrição, entre outras.

Porém, antes mesmo da explosão de casos no Brasil, os sistemas de saúde público e privado já olhavam a telemedicina como um recurso importante para o delineamento de fluxos assistenciais mais inteligentes, visando a equidade de acesso e a transposição de barreiras geográficas em locais mais remotos ou privados de recursos especializados.

Com a pandemia e a regulamentação da telemedicina de forma provisória pela Portaria do Ministério da Saúde n. 467/2020, os teleatendimentos se tornaram uma realidade em todas as instâncias.

Por sua versatilidade e praticidade, bem como capacidade de resolução de casos simples e triagem de casos com necessidade de priorização, a telemedicina oportuniza uma porta de entrada para pacientes antes negligenciados, bem como prioriza doentes a serviços sobrecarregados que necessitam de um refinamento, buscando utilizar os recursos de forma inteligente e equânime.

A telemedicina não é, no entanto, uma solução que opera de forma isolada. Ela se ampara nas redes de saúde como um todo, com necessidade de pontos para atendimento presencial, sejam estes ambulatoriais ou hospitalares. O método aliás, não substitui a consulta presencial, o atendimento híbrido (presencial e a distância) deve ser estimulado e pode funcionar como uma estratégia importante em contextos específicos, tanto nos mais básicos, quanto nos mais especializados. Cito alguns: monitoramento de pacientes em regime de desospitalização precoce, monitorização de pacientes em regime de internamento domiciliar (hospital at home), consultas de rotina para pacientes com doenças crônicas e estabilidade clínica, resolução de queixas agudas não complexas, monitorização de pacientes que iniciaram novo tratamento, checagem de exames, entre outros.

Adicionalmente ao exposto, os dispositivos móveis de telemedicina surgem como uma ferramenta para refinar o método telepropedêutico, transpondo parcialmente algumas barreiras importantes, como por exemplo, a realização de exame físico. Dentre os dispositivos hoje disponíveis no mercado, o Hospital Pequeno Príncipe, em parceria com o Hospital Infantil Sabará e a startup Tuinda Care, estão desenvolvendo um estudo clínico, para avaliação e incorporação do dispositivo TytoCare. O Tyto é uma ferramenta móvel de telemedicina com capacidade de captação e transmissão de dados de exame físico, dentre eles temperatura corporal, otoscopia, oroscopia, exame dermatológico simples e auscultas cardíaca e pulmonar. O estudo em questão visa comparar o uso do dispositivo em uma teleinterconsulta entre um médico inexperiente e um pediatra, ao método tradicional de atendimento presencial. Busca-se dessa forma o desenvolvimento de um método de exame físico guiado a distância, com precisão e segurança. A pesquisa serve ainda como uma plataforma de treinamento para médicos residentes iniciando seu treinamento em pediatria, proporcionando um momento de aprendizado e trocas em tempo real, com um exame físico compartilhado com o seu preceptor remotamente alocado.

A Medicina sempre foi uma área de conhecimento e atuação que impulsionou a ciência e a tecnologia em prol do desenvolvimento humano. Portanto, a incorporação de novos métodos tecnológicos com o mesmo rigor técnico e científico devem marcar mais essa transformação histórica.

Além disto, o olhar humanizado e a equidade do cuidado precisam ser objetivos também da nova medicina informatizada. Algoritmos, inteligência artificial, dispositivos portáteis e simuladores são capazes de melhorar a técnica e a qualidade da Medicina praticada, apenas quando aliadas a um fator humanístico igualmente qualificado. Afinal, cuidar não é apenas tratar ou diagnosticar.

É, portanto, nossa responsabilidade democratizar o acesso à telemedicina, bem como entender suas aplicações, visando a segurança do paciente e a integralidade de seu cuidado. Para desta forma reduzirmos distâncias com responsabilidade.


* Rafaela Wagner é Coordenadora Médica do Serviço de Telessaúde do Hospital Pequeno Príncipe (Curitiba – PR)
* Rogério Carballo Afonso é Gerente de Novos Negócios e Telemedicina do Sabará Hospital Infantil (São Paulo – SP)